Do caos herdado a uma plataforma B2B em produção
A Facilia é uma plataforma de faturação e gestão para pequenas empresas. Entrei num projeto que tinha perdido o seu designer e nunca tivera uma direção, e fiquei para desenhar o produto de ponta a ponta, hoje usado por dezenas de milhares de empresas em toda a França.
Contexto
A Fiducial é um grupo francês multissetorial. Um dos seus pilares é a Fiducial Comptabilité: uma rede de escritórios de contabilidade espalhados por França, que gerem as contas de pequenas empresas locais: a padaria, o consultório médico, a empresa de jardinagem.
A Facilia nasceu para servir esses clientes finais: uma plataforma SaaS para orçamentos, faturas e pagamentos, pensada para donos de pequenas empresas, gente que não domina nem contabilidade nem software. A particularidade estrutural do projeto moldou todo o meu trabalho: a estratégia estava em França (Lyon), a execução em Portugal (Braga), com os requisitos a chegar através de gestores intermédios, muitas vezes vagos e sem documentação.
O que herdei
Entrei cerca de seis meses depois de o projeto ter arrancado, e não encontrei um início, encontrei um problema. O designer anterior tinha saído, esgotado. Dezenas de ecrãs, desenhados mas desligados, sem documentação, sem critérios definidos. E o mais crítico: o desenvolvimento já estava a decorrer, a construir sobre essa base indefinida.
A tensão que define este caso: dar direção a um produto sem poder parar um comboio já em andamento.
Diagnosticar antes de desenhar
A minha primeira decisão foi não desenhar nada. Antes de produzir um único ecrã, precisava de perceber o que existia e porquê, e a resposta, depois de interrogar os responsáveis, foi que praticamente não havia um "porquê" documentado. Por isso comecei pela infraestrutura de conhecimento que faltava.
Esse mapeamento revelou o padrão mais perigoso do projeto: funcionalidades herdadas com uma ambição desproporcionada face à capacidade de entrega, e sem retorno de usabilidade que justificasse o custo.
Decisão 01: Simplificar a importação sem perder o valor de negócio
O caso mais claro era o onboarding de importação de dados. O fluxo herdado era praticamente um produto dentro do produto: o Excel importado tornava-se uma tabela editável no sistema, com múltiplos passos antes da importação final. Impossível de construir dentro do prazo, desproporcionado face ao problema.
Cortei a ambição, não o valor.
Decisão 02: Um formulário é um formulário; um documento é outra coisa
No conceito original o formulário do orçamento era mostrado no ecrã como uma folha A4, e o PDF espelhava-o exatamente: um documento visualmente pobre, e uma interface de edição refém do formato de papel.
O método, amadurecido: o módulo Achat
As Vendas nasceram no caos da fase inicial. Quando chegou o módulo de Compras (Achat), o processo foi diferente: comecei pelo mapa: a arquitetura completa desenhada antes de um único ecrã.
O que foi mapeado é o que foi construído. O plano corresponde, um a um, ao que está em produção.
Resultado
Início de 2025
Em produção desde então, em expansão contínua da base
~40k
Clientes ativos só no módulo de Compras
~25k
Clientes ativos no módulo de Vendas
3.º módulo
Tesouraria, com integração bancária, em desenvolvimento
Dezenas de milhares de clientes ativos no total, a caminho da meta de negócio de 100k.
Modelo de receita por módulo (Vendas, Compras, Tesouraria) mais créditos de emissão de documentos.
O que este projeto me ensinou
Que o trabalho de design mais importante nem sempre é visual. A esta escala, as decisões que geraram mais valor foram estruturais: criar a infraestrutura de conhecimento que não existia, filtrar a ambição para algo entregável, separar conceitos que estavam colados (formulário/documento), e construir o processo que permite à próxima funcionalidade nascer mapeada em vez de improvisada.
Num ambiente multi-país, multi-stakeholder e sob pressão, a competência que sustenta todas as outras é o discernimento: saber o que defender, o que negociar e o que deixar ir.
Fronteira atual: estou a trabalhar para levar o produto à sua próxima maturidade: das métricas de adoção (quantos o usam) às métricas de comportamento (como o usam), para que o próximo ciclo de decisões de UX seja guiado por dados de uso reais.